29 Maio 2009



Espera


Vai brincar com as estrelas!
Teu destino azul te segues
e teu silêncio me emudece.

Pelos vitrais dos meus olhos
espio cometas que saem de ti
arranco-te aos pedaços
como se despetala brutalmente uma flor.

Por onde tu vais
eu irei na direção da tua luz:
clarões a me guiar
como mísseis atômicos.

E quando o finito arrancar do teu peito
todo o caos
eu ainda estarei lá.


Sonho


Eis me aqui a galopar contigo por entre os sóis;
o vento foge por nossos dedos
e os poetas renascerão de um vulcão
as lavas queimarão nossos rastros.

Deixais que eu repouse
na palma da tua mão
e que sem pressa eu acorde
pois tu, em sentinela e vigília profunda
me velarás e me contarás os teus segredos.

E eu, tonta de amor, te beijes
e teus lábios selem os meus
depois de uma noite chuvosa.

E na manhã de sol
num segundo instante,
tu te ausentarás de tal maneira
que ainda posso sentir
que estás ao lado meu.

Ana Cristina Souto


Tarda, amor!


Como uma sombra em silêncio
segues cada passo teu;
sinto o mistério do teu perfume
em cada vão momento meu.

Se não posso amar-te,
deixes que tua sombra me persigas
assim, me servirei do teu silêncio
acalentando meu coração outra vez.

Sabe, amor,
lembro dos sonhos que desfiz
à espera do preço por querer-te
tortura infinda...
que por ventura, eu escolhi.

Tarda , amor!
Mas voltes com a tua sombra
para me dar abrigo
e não me deixes acordar dessa quimera
e o sol se cobrirá de amarelo como o outono
desfolhando o passado de nós dois.

Ana Cristina Souto





Se não viesses nunca


Se não viesses nunca
eu jamais saberia o que era amar
e a dor de perder-te.

O teu semblante
nada disse aos meus olhos.
Nem ilusão restou
à renúncia suprema da tua face.

Tu foste o ser mais amado!
Olho ao redor e não te vejo.
Eu te disse que vinha e vim,
vã ilusão que me entorpece.

Eu quero, nem que seja
a tua sombra
à pisar em ti entre o orvalho da vida

Se não viesses nunca
eu jamais saberia o que era amar
e a dor de perder-te.


24 Maio 2008

Ana Cristina Souto


Feitiço das mágoas



Aquele homem
Cujos pilares gregos
transitava meu caminho
e fitavam-me
os olhos
abrigo de luas,
se foi!

O bambual chorou,
palavras fraturaram almas.
Enegrecido o sol
dos pomares...

Meu senhor,
meio seio secou!

O rio da saudade
rio/ enchente/ fel
amargou a imagem dos narcisos.

Urdia o tempo
e nuvens,
vestígios do meu pranto rarefeito
prenunciavam cantos das trombetas.

Enfeitiçada pela dor;
estátua de ilusões
por onde tantos passavam,
os passarinhos se aninhavam às mãos.

Meu senhor,
em desassossego
entre sais, ventos e sóis
trago-te a mim,
aclamando
ao tomento meu
de morta viva.

23 Maio 2008

Manuel Bandeira


Não te doas do meu silêncio:

estou cansado de todas as palavras.

Não sabes que te amo?

Pousa a mão na minha testa:

captarás numa palpitação inefável

O sentido da única palavra essencial:

- AMOR .

27 Julho 2007

Petrúcio Maia e Capinam


"Sei que há milhões de sóis e eu nunca só estarei se tua paixão for igual a minha serei sempre um astro rei...Não importa se nos vemos de duas janelas distintas como se distante fosse vênus esse olhar que tanto brilha...No meu sonho estás mais linda que uma festa de sereno não imaginas o veneno que a solidão me ensina...Pois então se estás em marte em mercúrio ou em plutão meu coração não reluta em amar-te aqui no chão...Se cada fase da lua fosse fruto de nós dois constelações proibidas o que seremos depois...


.

20 Julho 2007

Mario Quintana


.SE EU FOSSE UM PADRE


Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,
não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,
Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!
Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus!

Ruy Espinheira Filho

Soneto do amor e seus sóis



Eram teus olhos de água, olhos de água
ensombrada de folhas, eram teus
olhos de água marinha, eram teus olhos
de água límpida, ou turva, eram teus olhos
de água cintilante de tão negra,
eram teus olhos de água luminosa
como só umas raras dessas brisas
chamadas alma, eram os teus olhos
— e eis que teus olhos ainda são, que sempre
outros olhos e os mesmos: o amor
diverso e idêntico no azul do peito
a amanhecer-me, a moldar-me as
asas de mergulhar no chão profundo
e patas de galgar os altos ventos.


10 Junho 2007

Ana Cristina Souto


Em ti


Em ti
minha voz tempestuosa
encontra paz
dos teus anseios lavrados.

Em ti
descobri o silêncio duro
que renega como escudo
à minha tola intrepidez.

Em ti
pus amarra nos punhos
sacrifiquei tua doçura
para manter-me dignamente pura.

Em ti
morri e removi montanhas
talhei em mármore teus olhos claros
que reluzem o pó do meu tesoiro.

Em ti
Ah! Em ti!
Amei-te como quem lava um leproso
e das fímbrias do meu ser
lambi tuas feridas e entranhas
cuspindo o mal à tua cura.

Em ti
ressurjo poisando no cimo
das tuas costelas
que as dedilho brincando
num ábaco
enumerando as meias-verdades
revelando a brisa passada
no dia em que contavas
tuas sublimes sardas.

Em ti
não há estação que adorne
a saudade do turbilhão
dos beijos que ora me deste.

Em ti
foram as maçãs do teu rosto
que comi pecaminosamente
sem remorso aparente
matando a fome do meu ventre.

Pablo Neruda

Fragmento de um texto


... Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o "preto no branco" e os "pingos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, corações aos tropeços, sentimentos...

17 Maio 2007

Hélio Aroeira

Foto: Drica Del Nero




Por um milésimo de tempo
nossos olhares se fixaram
- pupilas congeladas no instante indizível
pude então penetrar naquele azul profundo
de um brilho ancestral na íris
de remota familiaridade
um olhar antigo
reconhecido num piscar de eras

almas gêmeas
forjadas no astral dos tempos

eternas, vigilantes
em todas as épocas.

14 Maio 2007

Menotti del Picchia


O Vôo


Goza o vôo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas,tempo e vento,desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que teu mistério seja uma noite,enche-o de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu vôo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão
se pressentires que amanhã estarás mudo
esgota,
como um pássaro,
as canções que tens na garganta.
Canta.
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras
que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um vôo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota.
Voa e canta enquanto resistirem as asas.

Goethe



A superstição é a poesia da vida.

Olegário Mariano


O Enamorado da Vida

...

Eu sou um enamorado da Vida!
Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer
Colinas, penetrar o coração dos vales,
Relinchando feliz como um potro selvagem
Que solta as crinas no ar para melhor correr;
Ou retesar as asas brancas de gaivota
E atirar-me na fúria incrível das procelas;
Beber em haustos toda a glória do mar alto,
Rolar no bojo dos batéis desarvorados
Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas
Vida!
Quero viver todas as tuas horas,
As que prendi na mão e as que nunca alcancei.
Ser um pouco de ti no espelho das paisagens
Para, quando morrer, levar dentro dos olhos
A beleza imortal de tudo quanto amei.

Antero de Quental


O Que Diz A Morte


Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem...
Em mim, os sofrimentos que não saram,
Paixão, dúvida e mal, se desvanecem.
As torrentes da dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem.
Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.

Pablo Neruda



Já és minha.
Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobra suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma mais viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicado
se deixaram cair suaves sinais sem rumo,
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas.
Enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.

Rivkacohen

Particularmente hoje




Hoje,
particularmente hoje,
estou assim...
Meu corpo num canto jogado
Até o sol não saiu..

O pássaro que cantava,
sumiu..

O vento que soprava,
está parado

Hoje,
particularmente hoje,
O universo está calado..

29 Abril 2007

T.S. Elliot



RECOMEÇAR


Não há amor perdido, nem se fingem milagres
Não reparto o destino que me expia em saudades...
E o grito ecoa profundo;
“ Quero o meu mundo!
“O assalto recomeça, o espelho fascina
Sigo encoberto, o quebranto domina...
Mas a vida desalinha!
Sepulto a ruína, ressurjo em apreço,
E de novo, recomeço.

Só quem se arrisca a ir longe demais
descobre o quão longe se pode ir.

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Postagem destinada a minha amiga Fênix Solange Benevides .

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28 Abril 2007

Gerardo Mello Mourão


O QUE AS SEREIAS DIZIAM A ULISSES NA NOITE DO MAR


Não partas!
Se partires
as velas de tua nau serão escassas
para enxugar-te as lágrimas - e nunca
nunca mais tocarás a pele das deusas
nunca mais a virilha das fêmeas dos homens
e nunca mais serás um deus.

Ledo Ivo

SONETO PURO

Fique o amor onde está; seu movimento
nas equações marítimas se inspire
para que, feito o mar, não se retire
das verdes áreas de seu vão lamento.

Seja o amor como a vaga ao vago intento
de ser colhida em mãos; nela se mire
e, fiel ao seu fulcro, não admire
as enganosas rotações do vento.

Como o centro de tudo, não se afaste
da razão de si mesmo, e se contente
em luzir para o lume que o ensolara.
Seja o amor como o tempo — não se gaste
e, se gasto, renasça, noite clara
que acolhe a treva, e é clara novamente.

Soares Feitosa

O Prisioneiro



Trouxeram-me a prisioneira ao interrogatório.

Recusei-me às perguntas porque as respostas estavam ao passado.

Sequer o futuro se lhe indagou;

que também recusou perguntar, quando os carrascos lhe disseram:


— Pergunte o que quiser.
Ela apenas balbuciou:

— Eu sei.

Mentíamo-nos, porque jamais nos víramos.

Decretei a prisão imediata de todos os carrascos.

Mantive a prisioneira sob algemas,

que ninguém é louco de manter tesoiro tão rico ao léu;

mas, prudência maior, soltei-lhe os braços e mudei as algemas
aos meus próprios pulsos.

Ela — os gestos diziam que me seriam sob afagos.

Deixei: apenas que os olhos, os cabelos úmidos:

— Os meus? Os dela?

Era o chamamento.



Fortaleza, noite, 11.12.1999

Olavo Bilac

CONSOLAÇÃO


Penso, às vezes, nos sonhos, nos amores,
Que inflamei à distância pelo espaço.
Penso nas ilusões do meu regaço
Levadas pelo vento a alheias dores...
Penso na multidão dos sofredores,
Que uma bênção tiveram do meu braço.
Talvez algum repouso ao seu cansaço,
Talvez ao seu deserto algumas flores...
Penso nas amizades sem raízes;
Nos afetos anônimos, dispersos,
Que tenho sob os céus de outros países...
Penso neste milagre dos meus versos:
Um pouco de modéstia aos mais felizes,
Um pouco de bondade aos mais perversos...

Mario Quintana

ENVELHECER


Antes, todos os caminhos iam.

Agora todos os caminhos vêm.

A casa é acolhedora, os livros poucos.

E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Lucinha Araújo


O INSTANTE


Eu não quero nada,
não te peço nada.
Só que fique aqui bem perto,
inquieto ou de modo que eu possa;
ouvir a sua respiração;
Dividiremos o espaço,
como quem partilha bocados;
com generosa ternura.
Olhando um para o outro
com o zelo sagrado da contemplação,
sem ruídos...sem exigências...sem procuras...
Porque já basta o que temos,
e o momento é irretocável.

Cecília Meireles


Luar Póstumo



Numa noite de lua escreverei palavras,
simples palavras tão certas
que hão de voar para longe, com as asas súbitas,
e pousar nessas torres das mudas vidas inquietas.


O luar que esteve nos meus olhos, uma noite,
nascera de novo no mundo.
Outra vez brilhará, livre de nuvens e telhados
livre de pálpebras, e num país sem muros.


Por esse luar formado em minhas mãos, e eterno,
é doce caminhar, viver o que se vive.
Porque a noite é tão grande... Ah,quem faz tanta noite?
E estar próximo é tão impossível!

Clarice Lispector


Dá-me a tua mão



Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.


De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Florbela Espanca



Voz Que Se Cala


Amo as pedras, os astros e o luar
Que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar
Dos animais, divinamente puro.

Amo a hera que entende a voz do muro
E dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.

Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!

Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...

Ana Cristina Souto


Mel

Quando suavemente deslizaste
as mãos afastando a franja que revelaram
o mel do meu olhar
- que douram a tua fronte -
lamentei pelos beija-flores;
que só a ti cedi o pólen
ao beijares a pele da minha córnea.
Ante às trevas encontro a luz do teu olhar!
Eu te sorvo onde o amor reside...
Tu me fizeste maior;
melhor do que jamais poderia eu ser.


Silêncios comedidos, gritos, tantos sons irreverentes.
Nossos sonhos??!!!
- Jamais acorde-os!
Avante a sonhá-los.
Ah! Essas alegorias da realidade:
Mesmo sabendo que virás;
pela fresta da janela,
espreito à tua chegada....

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Pequeninos reveses
que teimaram em ruir nossas vidas...
Somos rochas; tais ondas não nos destruíram
a atmosfera ao nosso redor - tudo suporta
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Teu corpo / o meu desejo.
Tua alma / os meus sentidos.


Bebamos nosso amor num copo de mar!
Ah! Esses lábios de hortelã
que beijam a minha poesia
nas páginas de vida nova
no livro do nosso tempo...


Você é a soma das minhas decisões;
Que sejam doces
os nossos destinos e desafios;
Como a colméia dos meus olhos.

Ferreira Gullar

Cantiga para não morrer


Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

W. Wordsworth




How strange that all The errors, pains, and early miseries,

Regrets, vexations, lassitudes interfused

Within my mind, should e'er have borne a part

And that a needful part, in making up

The calm existence that is mine when

I Am worthy of myself. *

___________________________________________________________________

*
Como é estranho que todos

Os erros, sofrimentos e males de outrora,

Remorsos, humilhações e cansaços misturados

Na minha alma, tenham tido a sua parte,

A sua necessária parte, na criação

Desta calma existência que é a minha quando

Sou digno do meu ser.


The Prelude (1850)

Hermann Hesse




"A trajetória de nossa vida pode parecer definitivamente marcada por certas situações. Nossa vida, entretanto, conserva sempre todas as possibilidades de mudança e conversão que estiverem ao nosso alcance. E tais possibilidades são tanto maiores, quanto mais abrigarmos em nós de infância, de gratidão, de capacidade de amar."


Jean-Jacques Rousseau

Abrazo - Eduardo Naranjo



FELICIDADE PERENE E FELICIDADE DURADOURA


Por entre as vicissitudes de uma longa vida, reparei que as épocas das mais doces delícias e dos prazeres mais vivos não são aqueles cuja lembrança mais me atrai e mais me toca. Esses curtos momentos de delíriro e paixão, por mais vivos que possam ter sido, não são, no entanto, e até pela sua própria intensidade, senão pontos bem afastados uns dos outros na linha da minha vida. Foram demasiados raros e demasiado rápidos para constituírem um estado, e a felicidade de que o meu coração sente saudades não é constituída por instantes fugidios, é antes um estado simples e permanente que em si mesmo não tem vivacidade, mas cuja duração aumenta o seu encanto ao ponto de nele encontrar finalmente a felicidade suprema.

em Os Devaneios do
Caminhante Solitário

Nietzche

Fragmento de texto



"Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar para atravessar o rio da vida. Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem número, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio, mas isso te custaria a tua própria pessoa: tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, siga-o!"

Virginia Woolf

Fragmento de um texto




"... pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte, se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, mas que seguimos sozinhas e que nossa relação é para com o mundo da realidade e não apenas para com o mundo dos homens e das mulheres..."

José Saramago

Poema à boca fechada


Não direi:

Que o silêncio me sufoca e amordaça.

Calado estou, calado ficarei,

Pois que a língua que falo é de outra raça.


Palavras consumidas se acumulam,

Se represam, cisterna de águas mortas,

Ácidas mágoas em limos transformadas,

Vaza de fundo em que há raízes tortas.


Não direi:

Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,

Palavras que não digam quanto sei

Neste retiro em que me não conhecem.


Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,

Nem só animais boiam, mortos, medos,

Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam

No negro poço de onde sobem dedos.


Só direi,

Crispadamente recolhido e mudo,

Que quem se cala quando me calei

Não poderá morrer sem dizer tudo.

09 Abril 2007

Soares Feitosa





Dedicatória


O ar, amor —
este ar que eu te respiro.


SF,
Fortaleza, 30.10.2006, tarde em sol

16 Fevereiro 2007

Grazzi Barreto

Foto: Margarida Delga
ProsaPoéticamorosa

O valor que me cabe nesse momento de delírio é o que preenche a tua existência em mim. Se fosses metade do que sou, ainda assim seria maior do que eu, pois as medidas que lhe vestem são superiores às incomensuradas peles de que disponho. Ah...que me falta para perder a compostura de ser somente eu, senão um elétron de arquitetura? Há riqueza sim, na servidão, a depender de quem serve e de quem é servido. És por acaso um deus revelado aos meus olhos desejosos, um que ao me ver na feiúra onerosa dos meus excessos, me sorri mesmo assim?A tua boca, a mais doce, tão completamente, que o alfabeto se torna pequeno em tua língua. Não, essa não é uma simples boca, é qualquer coisa entre um sonho interminável e a singularidade da natureza. Tanta salinidade faz-me pulsar tanto que paraliso, incoerentemente perdida no meu próprio templo. Um desejar tanto faz de mim uma tua. Um querer tanto assim, faz dessa tua, um bem. E maior bem do que o justo efeito da causa, não há...

Ana Cristina Souto

Foto: Anne Brigman


Enfim

Pelos privilégios de suprema covardia
estilhacei minha imagem 7 vezes:

lamúria dos espelhos!

Foi-se embora o reflexo do tempo
o ódio às rosas espinhetas
sufoquei todos os escaravelhos.

Então,
como se fosses
brilhe morno desse sol
dos ventos alísios
e infinitamente distante
à minha fronte
meus claustros olhos
não deteram-se
- aos teus cabelos de prata.

Tiraste-me todos os véus
dos grilhões de minha amargura.

Não importa que eu sejas a primeira;
basta-me ser tua última!

Dos teus rochedos
que ergueram minhas ruínas;
toquei as estrelas
- ou seria o dedo Dele?

Enfim, capte-me
sem tortura de êxtases;
nos ventos das canções nos trigais
ou na penumbra vilã desses instantes;
- das mãos que desvendam os segredos das almas.




José António Gonçalves


Vem

1

Vem. Imagina-te no centro de todas as viagens.
Traz o perfume de outras eras, dos dias felizes em que fomos
alguma coisa mais. Talvez crianças breves, pássaros
feridos por um amor com sede de infinito.

Lembra-me os invernos, os outonos com sabor a erva
e a folhas gastas pelo tempo. E abre-me as janelas
que me fechaste um dia. E deixa-me entrar como uma brisa
em busca dos teus olhos, soprando nos teus cabelos.

Mas vem. Cobre-te de névoa e de flores. Veste o céu azul
e os prados verdes. E sorri, no silêncio possível do reencontro.
Deixa-te cair, nua e leve, nas asas do vento,
como uma pétala de rosa sem destino,
uma bola mágica de sabão
reflectindo sonhos no espaço. E aconchega-te dentro de mim.

Mas vem, anjo de transparências, de mãos brancas e suaves,
fruto exótico das minhas miragens. Vem. Traz a pureza
dos campos, o som das ribeiras correndo pelas encostas,
o murmúrio da noite de encontro às madrugadas.


2

Vem, apenas. Como se o mundo estivesse acabando,
a cada passo que dás em busca do meu sonho. E depois
não houvesse mais nada. Só tu e eu, enlaçados em viagem,
sobrevoando todos os horizontes.

Mas vem. Vem. Vem sem perguntares pelo amanhã,
pelos abismos que se abrem nas fronteiras dos nossos corpos.
Vem apenas. Com a lucidez dos espelhos e a espuma
inquieta do mar, batendo no calhau da praia.

Vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda
em tardes de vento brando. E fala-me de fadas, de castelos,
de rios mansos, onde alguma vez pudemos navegar.
Mas diz-me coisas sobre as árvores e as casas. Ou leva-me
contigo, como se fossemos apenas aves e voássemos com
o mesmo bater de asas. Vem, ou deixa-me morrer
com a tua lembrança numa manhã cinzenta,
com as gaivotas gritando no cais
e os vagabundos repartindo o seu sono
com os meus pesadelos. Mas vem,
como se partisses para sempre
e me esquecesses
nas tempestades das invernias desta ilha
algures perdida no tempo.
Vem.


(in "Os Pássaros Breves", pgs. 31/32, Colecção "O Lugar da Pirâmide",
nº. 38, posfácio de João Rui de Sousa, Ed. Átrio, Lisboa, 1995)

05 Fevereiro 2007

José Inácio Vieira de Melo


Epitáfio para Guinevere


Cavalos já foram pombos
de asas de nuvem.
Domingos Carvalho da Silva



Meus cavalos choram por ti, égua de olhos azuis.

Não mais invadirei o vento montado no teu galope.


Que fique inscrito na tua lápide

o verso de lágrimas dos meus cavalos.


Para tu, que trazias os céus dentro dos olhos,

o relinchar da paixão pagã

dos cavalos que trago dentro de mim.

Afonso Rommano de Sant' Anna

Poemas Para a Amiga

Fragmento 2


Eu sei quando te amo:

é quando com teu corpo eu me confundo,

não apenas nesta mistura de massa e forma,

mas quando na tua alma eu me introduzo

e sinto que meu sangue corre em ti,

e tudo que é teu corpo não é que um corpo meu que se alongou de mim.



Eu sei quando te amo:

é quando eu te apalpo e não te sinto,

e sinto que a mim mesmo então me abraço,

a mim que amo e sou um duplo,

eu mesmo e o corpo teu pulsando em mim.

21 Janeiro 2007

Ana Cristina Souto
















Encontro Marcado


Aceito sugestões

de um futuro

ainda em gestação.


Interlúdio da dor

- amor a quatro mãos;

que esfaqueiam as desavenças

dos nossos incógnitos demônios pessoais.


Volta, meu amor!


Pega o trem da vida;

no final da linha

me encontrarás ainda menina

- à nossa esperança.

Emily Dickinson

Tradução de Manuel Bandeira

Beleza e Verdade

Morri pela beleza, mas apenas estava
Acomodada em meu túmulo,
Alguém que morrera pela verdade,
Era depositado no carneiro próximo.
Perguntou-me baixinho o que me matara.
– A beleza, respondi.
– A mim, a verdade, – é a mesma coisa,
Somos irmãos.
E assim, como parentes que uma noite se encontram,
Conversamos de jazigo a jazigo
Até que o musgo alcançou os nossos lábios
E cobriu os nossos nomes.

11 Janeiro 2007

Ana Cristina Souto

Leila Kubba Kawash 1996
Lenda Oceânica

Em mim o teu coração.
E fui tolhida.
Passei por vendavais e tufões
dunas e marolas
e na derradeira
chorei. Em vão!

Quis espumar-te a lembrança
quis desenhar-te na areia
Por que?
Se eras tu que instigava
os meus desafios
e me transportavas à perdição.

Recordo a chuva a cair.
Um choro... Um lamento...
Relicário de mágoas.
Lanço lágrimas ao mar
como o sal da sua pedra;
pia batismal.

Ímpetos de ter-te;
Quando a chuva cai, leve, levemente.
Vai Chuva! Leva essa dor, harpejos e desejos!
Mas seja condescendente,
não me leve o amor embora!
Sem ele, secam-me as lágrimas.
Sem elas, sou seca de vida.

Sou ânsia de um cais.
Porto da tua embarcação
Mergulhado no sonho.
Guiar-te-ei a mim
Pelo canto da sereia...
Lenda do boto...

Mergulhemos sob a onda branca e fria.
Quem sabe? O destino e o fim;
Em nossos corpos de mares
em nossas seivas de algas
a morrer ou a viver de amor!
Sem morte que nos separe.

23 Dezembro 2006

Ana Hatherly


Quando a lua vier tocar-me o rosto


Esta noite morrerás.

Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e aquele que procurar a marca dos teus passos
encontra urtigas crescendo por sobre o teu nome.
Esta noite morrerás.
Quando a lua vier tocar-me o rosto
terás partido do meu leito
e uma gota de sangue ressequido
é a marca dos teus passos.
No coração do tempo pulsa um maquinismo ínscio
e na casa do tempo a hora é adorno.
Quando a lua vier tocar-me o rosto a tua sombra extinta marca o fim de um eclipse horário de uma partida iminente e o tempo apaga a marca dos teus passos por sobre o meu nome.
Constante.
O mar é isso.
A lua vir tocar-me o rosto e encontrar urtigas crescendo por sobre o teu nome.
O mar é tu morreste.
O mar é ser noite e vir a lua tocar-me o rosto quando tu partiste e no meu leite crescem folhas sangue.
A velocidade do sangue é tu partiste.
A febre é uma pira incompreensível como a aparição da lua e a opacidade do mar.
No meu leito a lua vai tocar-me o rosto e a tua ausência é um prisma, um girassol em panóplia.
Agora a lua chega devagar e o mar é leito de tu teres partido, uma infrutescência de eu procurar a marca dos teus passos por sobre o meu rosto.
A noite é eu procurar a marca dos teus passos.
Esta noite a lua terá um halo de concêntricas florações de gotas do teu sangue e a irisada sombra do meu leito é o teu rosto iminente.
A lua é uma seta.
Tu partiste é o silêncio em forma de lança.
Esta noite vou erguer-me do meu leito e quando a lua vier tocar-me o rosto

vou uivar como um lobo.
Vou clamar pelo teu sangue extinto.
Vou desejar a tua carne viva, os teus membros esparsos, a tua língua solta.
O teu ventre, lua.
Vou gritar e enterrar as unhas nos teus olhos até que o mar se abra e a lua possa vir tocar-me o rosto.
Esta noite vou arrancar um cabelo e com a tua ausência faço um pêndulo para
interrogar a lua por tu teres partido e a marca dos teus passos ser a razão mágica de a lua poder surgir de noite e urtigas crescerem no meu leito.
E se encontrar a marca dos teus passos vou crivar-lhe o coração de alfinetes
para que tu partiste seja a razão mágica de tu poderes morrer-te.
Quando a lua vier em forma de lança vai trespassar um pássaro para lhe ler nas entranhas a direcção tu partiste e a marca dos teus passos consiste nos olhos
abertos de um pássaro esventrado.
Ah, mas o luar é uma pluma do meu leito e a lua é o colo de tu morreste para
poderes enfim tocar-me o rosto.

06 Dezembro 2006

Pablo Neruda

Reflexos de outono,Washington Maguetas, 1993
Soneto XXV

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o
outono.

05 Dezembro 2006

Ana Cristina Souto















Desencanto

Tua silhueta
ainda arranha minha retina.
Contigo
ignorei o futuro
vislumbrei apenas o preciso;
— um blefe do destino —

Que seja!

Atravessei meus espinhos,
perdi todas as defesas.
Hoje,
imune à dor
- refém de mim,
lastimo a insistência da vida.

Poderia ser tudo maior.
Sim! Poderia!
Mas era preciso muito...
muito mais!

Nessa paixão sem amanhãs;
- réstia de luz -
refletida nessa taça de cristal trincada.

Giselda Medeiros

Canção para buscar-te

Deixarei que o vento perpasse
o meu ser e dele retire
teu nome, teu gesto, teu vulto
para que eu possa respirar.

Deixarei que as estrelas roubem
teu brilho e em seu olhar azul
prenda-o, assim, verei luzir
uma outra vez o meu olhar.
E deixarei que o mar te alcance
com sua voz potente e rouca
para que eu possa ouvir em mim
a minha voz, já quase morta.

E deixarei que o tempo leve
a solidão que o teu silêncio
bordou nas fimbrias do meu ser,
naquela tarde que chovia,
E depois de tudo... ah! depois
quero ver minha alma cansada
ainda assim te procurar
sofregamente e nada, nada,
nada de ti reencontrar.

Talvez que sabe não te achando,
desesperada, e louca, e tonta,
se volta pra si, sonâmbula,
para encontrar-se, enfim, a sós.

Mas, como poderei achar-me
se não estiveres em mim?
Pois é no teu caminho vago
que traço o meu destino andante
de estrela, de rio, de vento,
margeando sempre a solidão.

Soares Feitosa


A Lágrima Súbita

Nenhuma grande chuva
jamais encheu
o mar;
nenhuma seca do Ceará conseguiu baixar
o nível das águas
deste mar-oceano;
logo,
esta lágrima súbita,
neste mar salgado, é inútil
como volume.


— De que medos tenho coisa?


Transito eu - ela disse - entre o abismo
e a lembrança;
que agora,
neste borrifo de espuma e brisa,
os escorridos da minha face me confundem:


— serão de mim,
serão do mar? —


— De que medos tenho eu?


Por que agora uma lágrima,
nascida num canto de minha face,
quando lágrimas
só as conheço de alegre?


Seria este azul de mar
profundo, fundo,
cheio, soturno,
a fonte obscura do meu terror?

Se eu chamar a reflexão,
aplacadas serão minhas aflições?


Ou, mais prudente clamar pelo sonho,
que prefiro imaginar, agora:

(optei pelo sonho,
claro que é sonho)

esta vontade de fugir
e cavalgar horizonte e brisa,
tanger os ventos no corcel dos meus cabelos,
navegar os azuis e céus na esquina de minha face
e quando gritar por lágrima,
venha, senhora lágrima,
eu quero
eu preciso chorar,

::::::::::::::::::::::::::

::::::::::::::::::::::::::

e de surpresa,
quando olhar de lado,
é sonho, claro que é,
reencontrar,
no vento ligeiro,
a fuga dos teus olhos!?

Rubem Braga

Sonetos

E quando nós saímos era a Lua,
Era o vento caído e o amor sereno
Azul e cinza-azul anoitecendo
A tarde ruiva das amendoeiras.

E respiramos, livres das ardências
Do sol, que nos levara à sombra cauta
Tangidos pelo canto das cigarras
Dentro e fora de nós exasperadas.

Andamos em silêncio pela praia.
Nos corpos leves e lavados ia
O sentimento do prazer cumprido.

Se mágoa me ficou na despedida
Não fez mal que ficasse, nem doesse –
Era bem doce, perto das antigas.

Ana Cristina Souto

Areia Movediça


Tentar debater-me — sair de ti —
Afundaria mais e mais.

Assim —
Prefiro a inércia
a morrer soterrada,
sem o teu ar...

Chico Buarque

Embarcação


Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão

Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida
Como bebe um marinheiro de partida, mel

Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais,
ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais

Mais, mais que a vida em minha mão
Mais que jura de cristão
Mais que a pedra desse cais
Eu te dei certeza
Da certeza do meu coração
Mas a natureza vira a mesa da razão

Thiago de Mello












A fruta aberta

Agora sei quem sou.

Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore plantada
bem alta no meio da minha vida.

Agora sei as coisas como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.

Contigo aprendi que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.

(Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962)

04 Dezembro 2006

Madre Teresa de Calcutá


El aborto es un homicidio en el vientre de la madre.
Una criatura es un regalo de Dios.
Si no quieren a los niños, dénmelos a mí.
A falta de amor é a maior de todas as pobrezas.

Ana Cristina Souto
















Recolha

Recolha aquelas palavras
o vinho entornado

a blusa amarrotada
o sorriso cínico

os sóis, as luas.

Recolha também as flores roubadas
os nossos mortos

livros de TAO
o lugar à mesa

o presente impune.

E a rede na varanda
a nossa canção

a xícara de café
toalha molhada

as mesmas mentiras...

Recolha-as!

- Não deixe vestígios de ti!

Os sonhos;
deixe-os por mim...

Virginia Woolf

Última carta a Leonard Woolf
Querido,

Tenho certeza de que estou enlouquecendo de novo. Sinto que não podemos passar por outra daquelas terríveis fases. E desta vez não ficarei curada. Começo a ouvir vozes, e não posso me concentrar. Assim, estou fazendo o que me parece melhor. Você me deu a maior felicidade possível. Não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes até chegar esta doença terrível. Não consigo mais lutar. Sei que estou estragando a sua vida e que sem mim você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Está vendo, nem consigo mais escrever adequadamente.

Não consigo ler. O que quero dizer é que devo a você toda a felicidade da minha vida. Você foi absolutamente paciente comigo e incrivelmente bom. Quero dizer isso — e todo mundo sabe. Se alguém pudesse me salvar, teria sido você. Perdi tudo, menos a certeza da sua bondade. Não posso mais continuar estragando sua vida.

Não creio que duas pessoas tenham sido mais felizes do que nós fomos.

Virginia Woolf



Virginia Woolf tentou ‘curar’ sua loucura pelo suicídio.
Em 28 de março de 2007, faz 66 anos que a escritora inglesa Virginia Woolf se matou.


Sobre sua vida, é possível saber alguma ou muita coisa, principalmente depois da sensível e abrangente biografia de Quentin Bell. Infelizmente, a autobiografia de Leonard Woolf ainda não foi traduzida para o português. Leonard foi a pessoa que mais entendeu Virginia. É provável que ela tenha escrito a maioria de suas obras porque teve o apoio firme do marido e amigo. Leonard sacrificou-se pelo talento de Virginia. Trata-se do sacrifício do menor talento pela afirmação do maior talento. O casamento sequer lhe proporcionou prazer sexual.



Ana Cristina Souto

Mistérios da Alma

Só serei tua numa condição:
Que sejas tua eterna amada!
Teu olhar só exilarás o meu
e nos momentos de crise conjugal
sejamos cúmplices de nossos espasmos.

Se por ventura, tu desejares entender a minha alma
lamentarei tudo que vivemos,
pois alma de mulher é - i n d e c i f r á v e l -
Sendo assim, para ti,
serei apenas um disfarce.

Não percamos a pureza infantil!
Não divaguemos o que seria impreciso.
Nos embriagaremos de absinto;
e me unificarei ao teu universo paralelo
como imperatriz do teu Amor.

Apenas aconchegue-me em teus braços;
minha morada,
espaço que farei minhas queixas;
é sempre neles que preciso estar
nos meus momentos de dor ou ternura.

Não importa o meu passado!
Importa apenas o momento presente.
Os tropeços dos meus caminhos
perderam-se nas areias duma ampulheta
- Há tempos rasguei as horas (in)vividas.

Meu amor! Não procure me entender.
Tenho TPM!Tomo ansiolíticos para dormir;
falo pelos cotovelos e ainda por cima,
não sei fazer café.

Para não termos tais conflitos extremos,
ame-me com todas as ilusões incalculáveis.
Olha-me e sinta-se mais perto da vida.
pois te amarei perdidamente
e te erguerei um pedestal colossal.

Não será em qualquer cama que nosso amor despojará...
Serão em lugares etéreos
que consumaremos nossa comunhão carnal
e te depravarei com meus enigmas de fêmea.

Vamos ficar mesmo nas entrelinhas de vãos pensamentos.
Não queiras saber de mim, que farei o mesmo por ti.
Apenas cubra-me com lençóis brancos
- desses guardados em baús de fantasmas -
e sigamos avante
com nossos amargos ou doces mistérios.

01 Dezembro 2006

Ascendino Leite

Qualidade noturna

Noite cinza mas não suja.

Noite de homem, insenil,

senão que imaginoso,

tendendo ao viril,

ainda que só fitando o teto.

Ana Cristina Souto

















As Sardas Em Tuas Costas


Ah!

As sardas em tuas costas
minha Constelação de Órion;

- Impossível de contá-las -

E que me guiam
pela vastidão infinita
- do teu universo...

Antonio Mariano Lima















Existencialismo

Ele faz poesia
porque morre de medo
do tiro
no ouvido.


E se esquece
da extrema poeticidade
do suicídio.


Que tolo!


Que é então o poeta
senão um suicida
reincidente?


Soares Feitosa















Fishing Boat Caught In A Squall Off A Jetty: Andreas Achenbach - Germany: 1815 - 1910


Uma canção distante

Guardo tuas coisas para uma viagem
(em que tempo?),
.
em que vagão viajaremos — e as janelas:
abertas pr'uma paisagem verde...!?
.
Guardo tuas coisas para uma viagem,
(em que modo?):
.
no modo presente,

no modo advérbio, passado —
passam, passam coisas,

que os meus dedos aos lábios,

de uma mão perfeitamente trêmula,
cantam uma canção distante:
silêncio.

..
Guardo tuas coisas para uma viagem,
(em que vontades?):
.
pois se me fugiram os cavalos meus,
arrebentados todos os trens,
mortos os condutores de todos os carros,
naufragadas todas as jangadas,
.
e o mar,
brutalmente mar,
mesmo assim,
as coisas tuas guardadas, fiel —
(onde?):
.

navegar é possível.



Ana Cristina Souto














Naufrágio lunar


Sonhar às vezes, me faz bem.

Sonho e escrevo sob as estrelas

Cintilam-me as idéias;

- Quase singelas/

Quase afãs.


São faróis nos meus desatinos mais lúcidos.

Às vezes, têm um brilho incandescente

A retalhar-me o íntimo.

Outras, são minha luz no fim do túnel.

Algumas nada mais que o brilho de vaga-lumes


Não desejei amar os astros,

mas amei você!

Grande quimera!

Meus sonhos não te trazem a mim.

Eles me afastam de todos os planos.


Mas de certo, posso dizer:

- Ser estrela cadente no meu mundo terreno

Me traz a sorte de ter feito um pedido

e ter a nítida sensação de que ele foi atendido;

Se em vão,
eu não sei!
Mas me trouxe de volta a fortaleza
- de sinalizar outras naus.

Ana Cristina Souto


Encantos Naturais


Cinzas da tarde;

névoa que esfumaça.

Agora chuvinha fina...

E finjo que minto

quando me induz

ao inventar sons em teu corpo.

- Há em ti o tom -

roçar de teus pêlos

- Chocalhar de teus guizos;

Minha serpente.

E teus cabelos de tempestades!

- Encantos naturais...

Corpo sem censura,

que cobre meu ventre

sem nunca se fartar de ti

às emoções finais,

néctar gemido;

e me banha de gim,

Apesar da chuva...

Ana Cristina Souto

Hai Kai dos Teus Olhos


Os verdes dos teus olhos;

- Ah! O mar -

Que me desperta toda sede...


Elisabeth Barret Browning

Como te amo?
Como te amo? Deixa-me contar de quantas maneiras.
Amo-te até ao mais fundo, ao mais amplo e ao mais alto
que a minha alma pode alcançar
buscando, para além do visível dos limites do
Ser e da Graça ideal.
Amo-te até às mais ínfimas necessidades de todos
os dias à luz do sol e à luz das velas.
Amo-te com liberdade, enquanto os homens lutam
pela Justiça;
Amo-te com pureza, enquanto se afastam da lisonja.
Amo-te com a paixão das minhas velhas mágoase com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido - quando
perdi os meus santos - amo-te com o fôlego, os
sorrisos, as lágrimas de toda a minha vida!
E, se Deus quiser, amar-te-ei melhor depois da morte.

Ana Cristina Souto



















Despedida

Esquivo-me
às tentativas predatórias
de tuas mãos.
Onde o meu inexato olhar
procura o que perdeu-se
em pistas falsas.

Tomo o rumo do teu disfarce;
Encontro natureza morta.
Sem chorar minha sorte,
tranco a porta.
Num travesseiro de espinhos,
sangro
- desfigurando minha face.

Em incontida aflição
bebo o amargor de todos os venenos
e aprisiono os meus versos
em canções que não compuz.

Engulo lágrimas - como palavras
que corrói a minha garganta.
E com o céu chorando / chuva
no silêncio dos meus passos
despeço-me do teu domínio
sem olhar para trás...








Italo Rovere




















No dia D


O poeta
A pó
Está
Adeus
Dará
A sua
Dor

Poeta
Adormecido
À Deus
Dará
O seu
Juízo

Qual a saída
Para essa nossa ída
Todos de uma vez
Para onde?
Talvez..
Não sei!
Não vejo
Outra saída
A não ser
Saber
Viver
A própria
Vida.

D...
No dia d
Não quero me perder
Não quero ser levado
Se não por você
Para o outro lado.

Ana Cristina Souto


O dragão-serpente, que devora a própria cauda, em grego "que devora la cola", constituindo um círculo,
na Fenícia e Grécia recebeu o nome de Uoroborus, que significa simbolicamente o universo e a eternidade.

Infindável


Meu amor por ti
de tão imenso
conflui-se com meus
pêlos e unhas;
que teimam em crescer
- involuntariamente –

Permanecendo assim

após

- a minha / à tua partida...

Virginia Woolf

(...) Neste ponto eu me deteria, mas as pressões da convenção o determinam que todo discurso deve terminar com uma peroração. E uma peroração dirigida às mulheres deve ter algo, voces hão de convir, de particularmente exaltador e nobilitante. Eu lhes imploraria que se lembrem de suas responsabilidades, que sejam mais elevadas, mais espirituais; eu lhes lembraria quanta coisa depende de vocês e que enorme influência podem exercer no futuro. Mas essas exortações, penso eu, podem ser tranqüilamente deixadas a cargo de outro sexo, que as colocará, e a rigor as tem colocado, com muito maior eloqüência do que posso alcançar. Quando vasculho minha própria mente, não encontro sentimentos nobres sobre sermos companheiras e iguais e influenciarmos o mundo para fins mais elevados. Descubro-me dizendo, breve e prosaicamente, que é muito mais importante se ser o que se é do que qualquer outra coisa. Não sonhem influenciar outras pessoas, eu diria, se soubesse fazê-lo de forma mais brilhante. Pensem nas coisas como são.

E mais uma vez vem-me à lembrança, mergulhando em jornais e romances e biografias, que, quando uma mulher fala com mulheres, deve ter algo muito desagradável escondido na manga. As mulheres são duras com as mulheres. As mulheres não gostam das mulheres. As mulheres - mas será que voces não estão completamente fartas da palavra? Garanto-lhes que eu estou. Concordemos, então, em que um artigo lido por uma mulher para mulheres deve terminar com algo particularmente desagradável.

Mas como é isso? Em que posso pensar? A verdade é que freqüentemente gosto das mulheres. Gosto de sua informalidade. Gosto de sua inteireza. Gosto de seu anonimato. Gosto... Mas não devo prosseguir desta maneira. Aquele armário lá... Vocês dizem que ele contém apenas guardanapos limpos, mas e se Sir Archibald Bodkin estiver escondido entre eles? Permitam-me então adotar um tom mais severo. Ter-lhes-ei eu, nas palavras precedentes, transmitido suficientemente as advertências e a exprobação da humanidade? Falei-lhes sobre o conceito muito baixo em que as tinha o Sr. Oscar Browning. Mostrei o que Napoleão pensou de vocês em certa época e o que Mussolini pensa agora. Depois, para o caso de alguma dentre vocês aspirar à ficção, transcrevi para seu bem a recomendaçãoo do crítico sobre reconhecerem corajosamente as limitações de seu sexo. Referi-me ao Professor X e dei destaque a sua afirmação de que as mulheres são intelectualmente, moralmente e fisicamente inferiores aos homens. Transmiti-lhes tudo o que veio a mim sem que eu procurasse, e aqui está uma advertência final, do Sr. John Langdon Davies. O Sr. John Langdon Davies adverte as mulheres de "que quando as crianças deixam de ser inteiramente desejáveis, as mulheres deixam de ser inteiramente necessárias". Esspero que vocês tomem nota disso.

Como posso incentivá-las mais a empreenderem a tarefa de viver? Minhas jovens, diria eu, e tenham a bondade de prestar atenção, pois a peroração está começando, voces são, a meu ver, vergonhosamente ignorantes. Nunca fizeram uma descoberta de qualquer importância. Nunca sacudiram um império ou levaram um exército à batalha. As peças de Shakespeare não são de sua autoria, e vocês nunca apresentaram uma raça de bárbaros às bençãos da civilização. Qual é sua desculpa? É muito fácil vocês dizerem, apontando para as ruas e praças e florestas do globo fervilhando de habitantes negros e brancos e cor de café, todos extremamente ocupados com o tráfego e as empresas e o fazer amor, que estivemos ocupadas com outro trabalho. Sem nosso trabalho, esses mares não seriam navegados e aquelas terras férteis seriam um deserto. Geramos e alimentamos e lavamos e instruímos, talvez até os seis ou sete anos de idade, o bilhão e seiscentos e vinte e três milhões de seres humanos que, segundo as estatísticas, existem atualmente, e isso, mesmo admitindo que algumas de nós tenhamos tido ajuda, leva tempo.
Há uma certa verdade no que vocês dizem, não o nego. Mas, ao mesmo tempo, permitam-me lembrar-lhes que existem pelo menos duas faculdades para mulheres na Inglaterra desde o ano de 1866; que, a partir do ano de 1880, a mulher casada foi autorizada, por lei, a possuir sua própria propriedade; e que em 1919 - e já se vão aí nove anos inteiros! - ela obteve o direito de voto. Será que posso também lembrar-lhes que a maioria das profissões está aberta a vocês há quase dez anos? Quando refletirem sobre esses imensos privilégios e sobre a extensão de tempo em que eles vêm sendo desfrutados, e sobre o fato de que deve haver, neste momento, umas duas mil mulheres capazes de ganhar mais de quinhentas libras por ano de um modo ou de outro, voces hão de concordar que a desculpa da falta de oportunidade, formação, incentivo, lazer e dinheiro já não se aplica. Além disso, os economistas têm-nos dito que a Sra. Seton teve filhos demais. Vocês devem, é claro, continuar a ter filhos, mas como dizem eles, aos dois e aos três, e não às dezenas e às dúzias.

Assim, com algum tempo em suas mãos e algum conhecimento livresco na cabeça - voces já tiveram o bastante do outro tipo e, em parte, suspeito de que estejam sendo enviadas à universidade para serem desinstruídas -, sem dúvida ingressarão num outro estágio de sua carreira muito longa, muito laboriosa e altamente obscura. Milhares de penas estão prontas para sugerir-lhes o que devem fazer e que efeito terão. Minha própria sugestão é um pouco fantástica, admito; prefiro, portanto, colocá-la em forma de ficção.
Disse-lhes, no transcorrer deste ensaio, que Shakespeare teve uma irmã; mas não procurem por ela na vida do poeta escrita por Sir Sidney Lee. Ela morreu jovem - ai de nós! Não escreveu uma só palavra. Ela está enterrada onde os ônibus param agora, em frente ao Elephant and Castle. Pois bem, minha crença é que essa poetisa que nunca escreveu uma palavra e que foi enterrada numa encruzilhada ainda vive. Ela vive em vocês e em mim, e em muitas outras mulheres que não estão aqui esta noite, porque estão lavando a louça e pondo os filhos para dormir. Mas ela vive; pois os grandes poetas nunca morrem, são presenças contínuas, precisam apenas da oportunidade de andarem entre nós em carne e osso. Essa oportunidade, segundo penso, começa agora a ficar a seu alcance conferir-lhe. Pois minha crença é que, se vivermos aproximadamente mais um século - e estou falando na vida comum que é a vida real, e não nas vidinhas à parte que vivemos individualmente - e tivermos, cada uma, quinhentas libras por ano e o próprio quarto; se tivermos o hábito da liberdade e a coragem de escrever exatamente o que pensamos; se fugirmos um pouco da sala de estar comum e virmos os seres humanos nem sempre em sua relação uns com os outros, mas em relação à realidade, e tb o céu e as árvores ou o que quer que seja, como são; se olharmos mais além do espectro de Milton, pois nenhum ser humano deve tapar o horizonte, se encararmos o fato de que não há nenhum braço em que nos apoiarmos, mas que seguimos sozinhas e que nossa relação é para com o mundo da realidade e não apenas para com o mundo dos homens e das mulheres, então chegará a oportunidade, e o poeta morto que foi a irmã de Shakespeare assumirá o corpo que com tanta freqüência deitou por terra. Extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras, como antes fez seu irmão, ela nascerá. Quanto a ela chegar sem essa preparação, sem esse esforço de nossa parte, sem essa determinação de que, quando nascer novamente, ela achará possível viver e escrever sua poesia, isso não podemos esperar, pois isso seria impossível. Mas afirmo que ela viria se trabalhássemos por ela, e que trabalhar assim, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.

outubro de 1928

Um Teto Todo Seu - Ed. Nova Fronteira / Trad. Vera Ribeiro

Ana Cristina Souto

Venus Dormindo (1944), de Paul Delvaux.















C´est la Vie


Quando te vi a vez primeira
já o tinha em meus olhos;
teu perfume, essência inconfundível,
inebriava-me as entranhas.

Teu olhar
azul-violeta,
tal a calmaria do mar
após uma noite de tormenta.

O encanto flutuava pelo espaço sideral
à luz do luar — descalços e bêbados
balbuciávamos palavras etéreas

Eu, distraída
dispersei o teu fascínio em mim
em breves instantes de arrebatamento.

A paz morta pelo ciúme,
encruzilhadas... Desencanto.
Ansiosa minha alma te reclamava.

Ah! Fosse meu o teu último alento!

Tua lembrança ...
surges nos lampejos
como um astro desponta no firmamento

Eu te perdi!
e recrimino a delinqüência quase juvenil.

Ah! Mas o triunfo do tempo...

Queria dar-te mais que poesia
mas foste por atalhos
e me restou dorida consolação.
Hoje te dou meu lamento;
estendo-te a mão, em cumprimento banal.

E te foste como se vão os dias
longos e enfadonhos de inverno;
e vivi tantas vidas!
Em vão!

Obsessão!

Fecho os olhos
para não ver teu rosto
perpetuado em outros rostos.

Inútil!

Vejo-te com teus olhos de mar
e teu perfume mediterrâneo
até no silêncio dos meus sonhos.

22 Setembro 2006

Franz Kafka


Os lamentos

São as sedutoras vozes da noite: também assim cantavam as Sereias... Não fora de justiça, para com elas, atribuir-lhes o deliberado propósito de seduzir: elas bem sabiam que possuíam garras e nenhum seio fértil, e disso lamentavam-se em altas vozes - mas não tinham culpa de soarem tão belos os lamentos.

Ana Cristina Souto



Tu


Tu
Minha luz;
Onde impera a escuridão...

Meu lado dia!
Meu lado noite!

Tu!

- Meu Juízo Final...

Soares Feitosa




À vista de ti


Nunca te vi, melhor que seja assim.

Teus cabelos seriam trinados ao vento?

Poderia eu dizer “treinados”, eles seriam — porque aí corre o vento da tardinha — sempre me dizesdo vento.

Guardo teus papéis eu guardo.

Perco-os, justo que me percam.

Um cartãozinho..., teu, a te encontrar, azul...,azul seria a saia de sair?

Ou, haverias de preferir uma roupinha amarela e os olhos vagos de nenhuma palavra?

O que poderei dizer quando te encontrar?..., se.

Nestes tempos modernos, teria lugar para um silêncio?

Falarias?
De que nos diríamos?

Melhor que teus cabelos fiquem ao vento.

Ah, vento doce, da noite,
como me perfumas o hálito desta noite cedo.

Dimas Macedo



Casulo


Te amo sobretudo os lábios

e a resina viscosa dos teus seios,
pois a vulva dos teus olhos enlaça
a sedução invisível dos meus pelos,
onde começo a viver e me embaraço,
porque me mato de amor quando te vejo
.

José Alcides Pinto



NOSSO AMOR

O amor está no arco-íris e no fim da tarde.
Está no teu olhar e nos cabelos negros
que às vezes se enrolam como tranças
e me prendem ao teu corpo como um feitiço.
O amor está no eclipse do sol e no meio da rua.
N a madrugada, no vento, na chuva, no vôo da ave
perdida na tempestade à procura do ninho.
O amor está em mim e em ti, em nossa pele
como grafite no muro que o tempo não apaga.
Está no pergaminho de nossas mãos.
N o primeiro olhar e no primeiro beijo que me deste.
Está no perfume da flor, na música das estrelas.
Em nossos corpos unidos na agonia do sexo.

Pedro Lyra

O MOTIVO


Te amo?

Não sei.

Sei que quero estar contigo quando estou em paz;
quando estou em transe, também quero estar contigo.

(Se te quero na calma e na luta, deve ser porque te ame.)

Quero estar contigo quando a chuva me congela desejos;
quando o sol me acende sonhos, também quero estar contigo.

(Se te quero no vazio e no pleno, deve ser porque te ame.)

Quero estar contigo quando sofro que a solidão começa a ferir;
quando a festa me oferece o mundo, também quero estar contigo.

(Se te quero na angústia e no prazer, deve ser porque te ame.)

Quero estar contigo quando a manhã traz uma música de vida;
quando a noite um silêncio de morte, também quero estar contigo.

(Se te quero na vida e na morte, deve ser porque te ame.)

Não sei. Não sei.

Mas, sobretudo, quero estar contigo quando quero estar comigo.Como agora, e sempre, sempre, ainda, e mais e mais e mais.

J G de Araujo Jorge


Ah, Se Tu Voltasses...
Ah, Se Tu Voltasses...
Fico a me repetir, que se voltares
te olharei nos olhos sem tremer
e te direi, vingando a minha mágoa:
- já não te quero mais.
Mantenho assim de pé o meu orgulho
a esta espera...
Ah, se tu voltasses!
(Só de pensar, sinto uma angústia, um nó
a me apertar o peito...)
- seria até capaz de ter um infarto
com este coração já tão batido
e que morre por ti, de qualquer jeito.

Ana Cristina Souto



Última Afeição


Senti tanto a sua ausência...
Você que me ensinou a admirar as estrelas
que desbravava as minhas esferas
dentro dum silêncio que nos dizia tudo

Aceitava-me por inteira
cúmplice de todas as minhas incertezas
síntese de tanta compreensão incondicional
emanava afeição por todos os poros.

De repente
no deslocar de uma pedra
no alto de uma colina
circunstâncias adversas perderam-se nossa razão

Exilados nos desencantos
sem o brio e o esplendor de uma fera
eu, doce, escrava, fácil presa
degolei minhas ilusões

E agora Ana?

Mergulhei no mais profundo inferno.
Solidão que tanto me assola...
Como exprimir ou tolher tal sentimento?

Sim! Houve um reencontro;
tive a chance de curar minha ferida
e reavivar a chama mortiça
mas feri-me mais com seu desalento.

Rendi-me a seus pés
quase numa súplica.
Em vão! Não tive o seu perdão;
você já não era o mesmo.

E eu, nau, ancorada numa ilusão
sussurrei palavras desconexas
e apenas o que tive de você
foi um olhar de compaixão.

Doeu tanto esses olhos - donos da situação
que antes me ofuscavam como um brilho na escuridão;
que hoje prefiro o escuro de uma madrugada tenebrosa
a seus olhos cegos, frios, fúteis e inúteis.

E a recôndita paz das horas esquecidas;
sem acenos de adeuses,
o sentido que se perdeu
- e acabou-se a história!

Soares Feitosa


Strip-tease
Jamais eu ficaria quieto
sob o teu olhar;

que muito menos quietos,
no direito de ir e vir,
sobre o teu corpo,
seriam os meus olhos lívidos.

Porque sobre mim,
bastam os sons
dos teus vestidos:
já me desvestem a alma.

Drauzio Varela


PRA QUE SERVE UMA RELAÇÃO?

por Dr. Drauzio Varela, médico cancerologista e escritor



Definição mais simples e exata sobre o sentido de mantermos uma relação?

”Uma relação tem que servir para tornar a vida dos dois mais fácil”.

Vou dar continuidade a esta afirmação porque o assunto é bom, e merece ser desenvolvido.

Algumas pessoas mantêm relações para se sentirem integradas na sociedade, para provarem a si mesmas que são capazes de ser amadas, para evitar a solidão, por dinheiro ou por preguiça. Todos fadados à frustração. Uma armadilha.

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas para ter alguém que instale o som novo, enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio, sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada: uma pessoa bonita a seu modo.

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.

Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem o corpo um do outro, quando o cobertor cair.

Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro no médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

Ah se todo mundo pensasse assim!!!!!

21 Setembro 2006

Giselle Marques


A REFLE TIDA DO NÃO


Reflete o espelho azul na parede erva-doce
Cúmplice de apertos e mordidas
E puxões, cabelos, cabeça gigante
Há tempos não vista por aquelas bandas
Por aquelas bandas de dois lados
Direito e esquerdo
Macio, áspero, remédio amargo
Que funciona com kiwi e lima da pérsia
E músculos, e músculos, e músculos
Pedra, pau, pedra, pau, puxa vida!
Lutam tatuagens de henna no cérebro desejoso
De um dia diferente do outro.
O laço é desfeito, há laços sem nós
A necessidade é rarefeita.
Volúvel a vontade do beijo de bafo
Volúvel à vontade no beijo da vida
Não há regra, não à regra
Nem constatações, nem mentiras
Muito menos verdades.
Não às perguntas
Indiscretas.
Não às declarações
De posse.
Posso?
Não ao veneno que inventa
Inimigos ocultos e íntimos.
Não, não e não;
Reflito então sobre...
O sim!

Maria Carpi



Do Livro de Poemas
"As sombras da vinha"
Vinhador, antes de te amar
eu já te amava. O tempo
não ficou saciado com a poda
dos ramos na primavera.
Antes de percorreres a sebe
do corpo e me despires
das páginas, acrisolando
o maduro, eu já te amava.
Afundando-te as raízes
no indecifrável e regando-te
com meu moinho d'água
eu já te amava, sem moderação,
sem reserva. A secura sabia
dos sumos, eu já te amava.
Antes de me dares o fruto.

Ana Cristina Souto

Amor de Primavera


Espreita-nos o pôr-do-sol
em nossa contemplação.
Das palavras mutuamente sussurradas
em que tornam-se imortais nossos instantes
de plena ternura intemporal.

Um fim de tarde perfeita!
Nossos braços entrelaçados
jurando promessas infindas
do mais doce e sereno amor;
Onde os risos eram uma melodia
e os beijos permutados e ininterruptos
nos padeciam num delírio de nirvanas.

Caminhávamos sobre corais e musgos;
jogávamos pedrinhas ao mar
e elas viravam pequenos corações

Escorrego e enrosco-me em teu peito;
- Ávido de trajetos e incertezas -
e sinto teu coração que transborda de universo
em lentos compassos de espera
transportando-me ao portal do paraíso perdido.

Nossos devaneios comedidos
são segredos glaciais de almas supremas
que somente nos sonhos dos amantes
entregam-se aos mantos azuis de aspirações
que faz-nos inexatos –
Mas nesse momento, nada importa!
Já que é úmido o orvalho que mata nossa sede.

Tua presença inebria-me
tua mão estendida à minha
remete-me à primavera do sertão;
A aridez do desejo.
O silencioso milagre da Natureza
e as folhas murmurando recitais
de culto ao nosso amor.

A chuva amena rega
aqueles botões de rosas
que distraidamente tu roubas
e enfeitas os meus cabelos;
E a brisa levemente exala um aroma de flores
confluindo com a doçura constante dos poentes.

Do teu sangue -
florescem crisântemos.

Sim! Eras tu!


- A primavera que eu esperava.

Paulo Castro

SUBSTÂNCIA AMOR


Interessante notar que provei da substância amorosa com 33 anos.

Antes não sei o que era, na verdade, sabia, escrevia e por isso, era algo literário, que cabe em uma sintagma. Mas ontem provei algo que causa mesmo alucinações visuais, sério. O quintal, plena noite, brilhou da cor do dia. Parecia algo bem forte, que dava até medo, mas já estive em muitas paradas, não era essa, a que é a maior de todas, que iria me afastar. Pode paracer sem sentido. O lance é que todos sentidos, tempo-espaço, se concentraram em um único ponto.

De força atômica.

Ontem perdi minha virgindade, minha veia era um canalículo de saliva.

Não há descrição possível pra isso.

Só algo como um relatório. Não um elogio, elogios seduzem, eu quero manifestar a clareza do amor.

Os objetos, antes ameaçadores, se tornam abençoados, apesar de confusos.
A arte ganha nova dimensão.

Você ouve as pessoas que não sejam o seu amor apenas por bondade natural que só nasce de tal vício.

É inalienável. Ninguém pode me tirar.
Existe uma raridade que se conclui da falta de expressão de tais relatórios objetivos. A literatura peca pela quantidade enorme de figuras lingüísticas.

Não há fórmula. No meu caso, metido em auto-suficiência covarde, apenas permiti certa depilação, lavar de cabelos ( ela gosta revoltos ), ouvir um disco, ouvir mais que isso, histórias dela, com real e magnético interesse, e eu, me lembrei de histórias que ainda não tinha contado à ela. Onde estavam essas coisas ? Nossa, quanta bobagem eu havia desferido, como havia me esquecido de tanta grandiosidade, que assim só constatei quando houve paralelismos com passagens da vida dela...eu fiquei no meu ego, mas meu ego estava sendo possuído - a bom gosto, que se entenda - pelo dela, em um espelho de regojizo.

A imbecilidade diz: "Um dia você chega lá".
E nós dissemos, abraçados:
- estamos em sonho ? estamos em universo paralelo ?
eu, besta que sou:
- estamos mortos...?
- NÃO !
Sacaram ?
( imaginem um eletro-cardiograma de alguém VIVO).
( O Eletrocardiograma conduz eletricidade, e agora, a vida dispensa terrorismos das baixas por brigas. Imagine subir uma escada. E subir. )
Saquei.


20 Setembro 2006

Paulo Castro


Entrevista dada ao Jornal "LUZ VIOLETA" EM 10/12/2005, fim de tarde quente, nublado, na casa de campo do médico, psicanalista, psiquiatra, escritor, filósofo, sexológo, teosofista, médium, pai de família, poeta, maldito, vagabundo, inimigo e monarco-anarquista, Paulo Castro.
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LV : - Como você se definiria meu amor ?
PC : - Um filho bastardo de Fausto Fawcett
LV : - Não seria uma contradição ? Seu gosto musical é um caos, ou isso é boato ?
PC : - Não é boato.
LV : - Como foi iniciado na literatura ?
PC : - Por um professor que me chamava de QUERIDÃO e me levava sob ação de drogas psicotrópicas pra casa dele. A gente tomava batida de morango e escrevia poemas de cunho gay. Dessa turma, me lembro bem de Guimarães Rosa, Olavo Bilac, Sidartha Gautama , Saint-Germain, e o Jaques Lacan. Éramos uma nova geração beat.
LV : - E a literatura nética ?
PC : - Eu escrevia contos de vampiro, de um semi-vampiro, que tinha barato bebendo água benta.
LV : - Não sejamos ridículos !
PC : - Foi o que pensei. Exatamente.
LV : - Quem são seus ídolos no mundo literário ?
PC : (risos) - Ah, são tantos ! Sabe, eu leio muito, desde de pequeno, tudo que me cai na mão, desde bula de remédio até James Joyce...
LV : Senso-comum ?
PC : Eu escrevo crônicas, sabe como é...
LV : Essa sua nova conversão ao misticismo ?
PC : Percebi que estava em contato com algo maior quando adoeci do coração. Como todos sabem, estou com insuficiência cardíaca grave. Senti que a religião não existe, é uma mentira. A verdade não está fora de você. Está dentro. Agradeço ao enfermeiro JOSIAS, o LONGO, do Hospital do Coração de Campinas.
LV : Por quê sumiram os travessões ?
PC : A senhorita ainda não viu nada.
LV : E a experiência teatral ?
PC : Um sucesso internacional. A peça "Red Shoes" me levou até os confins lusitanos, onde fui tratado como rei, como deus, como Paulo Castro. Todos por aqui ficaram com inveja filha da puta. Obrigado por essa pergunta.
LV : O que acha dos blogs de literatura ?
PC : Gosto de vários, deixo comentários bem humorados, mas quanto mais famoso é o escritor, menos atenção ele dá ao leitor. Mesmo que seja um bosta. O blog é outra maneira de ser vaidoso. Os clubinhos literários continuam a existir de maneira vitual-patética.
LV : Falou sério agora !
PC : Nem tanto.
LV : E o ORKUT ?
PC : Uma maneira de estar no mundo. DAISEN. Cyber-Sartre.
LV : O que dizer pra quem está querendo começar ?
PC : Começar o que, porra ?
LV : Sei lá. Tá na pauta...
PC : Ok. Siga a sua lenda pessoal.
LV : Por falar nisso, o que causou seu afastamento do blog "Litertura Corporal" ? Ele estava nas moscas !
PC : Estive viajando pelo interior de São Paulo, como já fez um dia Jack Kerouac.
LV : E a medicina ?
PC : Está muito evoluída e em breve teremos tratamentos para doenças sérias, essa é minha opinião pessoal como médico, paciente e poeta.
LV : Como foi o seu CHAT na UOL, seus leitores reagiram bem ?
PC : A maioria não me conhecia. Perguntaram se eu publicava com intuito de ajudar as pessoas. Eu disse que não. Ficaram bravos. Eu fiquei bravo. O pau comeu. O moderador interviu. Nunca se dei bem com moderadores.Nunca cê dei bem com eles. As conexões nacionais com o serviço UOL sofreram explosões e perdas humanas. Foi divertido. Sei lá. O artista tem que ir onde o seu karma está.
LV : E o povo ?
PC : Hoje eu entrei numa comunidade "Homofobia-não dá!". Já basta de minorias, não ?
LV : "Literatura Corporal" é a melhor Comunidade do ORKUT ?
PC : Sim. Sem sombra de dúvida.
LV : É fácil fazer parte ? Paga ?
PC : Imagine, senhor ! É só ir em "Comunidades", pesquisar e se associar.
LV : O suco de clorofila melhorou sua perfomance sexual ?
PC : Em nada.
LV : Projetos para o futuro ?
PC :(risos) Ah, são muitos...mas na hora certa todos vão saber !
LV : Já entrevistei alguém que me deu a mesma resposta...
PC : Almas Gêmeas. E Safadas. Criminosas. Manipuladoras.
LV : E a psicanálise ?
PC : Adoro. Recomendo. Agora é sério. Sem brincadeira de autor que quer ser engraçadinho em seu site pessoal. Esses caras são um saco. A Psicanálise se coloca contra a banalização da subjetividade imposta pela psiquiatria biológica. Só não cura nêgo engraçadinho em site de literatura.
LV : Método de escrita ?
PC : Associação livre com retoques e bordados posteriores.
LV : Por quê "Incomodado de Nascença" é o título da sua coluna no jornal ?
PC : Menina, sabe que eu mesmo não sei. Foi improviso. Como a vida. Como o destino. Só sei que amo essa coisa da coluna. É quando sinto que o teclado é um piano louco e que o público é diferente em si, brilhante, inteligente, burro, silencioso, honesto, bombástico, kantiano !
LV : Fica mesmo emocionado, não ?
PC : Fico. Embargado.
LV : Nunca dá pra saber quando você está falando sério e quando não, isso é uma merda do ponto de vista jornalístico e da sua fama...
PC : Pois é. A minha primeira namorada já me disse isso. O cinismo é uma forma de auto-afirmação, que aliás estou superando com o uso dos Florais de Bach...
LV : Fala sério, Paulão !
PC : Caralho. Tô falando. Tô sentindo a espiritualidade toda noite, quando deito de barriga pra cima, esquenta na altura do umbigo e vem a paz que dilata a alegria.
LV : ...
PC : ...
LV : ...
PC : ...
LV : Como está sendo ficar sem o cigarro e a bebida ?
PC : ...
LV : Situação política do país ? Governo Lula ?
PC : ...
LV : ...
PC : Café ?
LV : Chá Verde.
PC : ô, Francinete !!!!!!!
( acaba assim mesmo e daí ? )

Hilda Hilst



Delicatessen


Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, "tá quentinho, comprei agora". Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua "ídala", mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: "pé-de-porco". Não entendi. Como? "Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também". Ahn... interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: "O que aconteceu com seus gatos?" Resposta: "Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu". Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que "bife" era uma coisa para as classes mais baixas, "de um mau gosto terrível", ele enfatiza. E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia... Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas... Perguntei: "E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?" Resposta: "Tive de matá-los". "Mas por quê?!" Resposta: "Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos". "Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?" Olhou-me aparvalhado: "Mas onde? Pra quem?" "E como você os matou?" "A pauladas", respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles. E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin(?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz? A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a idéia de criar criaturas e juntá-las? Oscar, traga os meus sais.

Texto extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas-SP, edição de 01/03/1993.

05 Setembro 2006

Paulo Leminski




Não Discuto

não discuto

com o destino

o que pintar

eu assino

04 Setembro 2006

Ramon Moreira



Acordar

Num mundo perdido vislumbrei-me em versos
Num mundo esquálido convalesço em sonhos
Aos prantos rogo uma canção pra ti
Onde estava quando não ao teu lado?
Solidão mareja os olhos
Paz não me traz o espírito
Que a sede de luta me abasteça o corpo
Que loucura me faz querer paz com espada?
Não é destino ser andarilho
Menos buscar na solidão liberdade
A cada batalha uma guerra perdida
E na mente a crença tola de ser além
Deveras tenho pena deste ser
Pois que razão não há no menor de meus gestos.

Ricardo Wagner


papel
é pele
onde cicatriz
se mutila

caneta
é bengala
de quem sangrou
até viver

coração
é lugar
onde labirinto
se perde

03 Setembro 2006

Rodrigo ben D´Almeida



SOBRE PAULA LYN, A FOTÓGRAFA

Ela é certa e errada
É azul e amarela
É quente e mais quente ainda
É magia e verdade
É um vento que a gente sonha em ter
Entre as mãos
Entre os cale-se e cálice
Entre o fale e o não diga nada
Entre o choro e o mar
Entre o sim e o talvez.
Entre
Entre sem bater
Mas não feche a porta.

Agnes Mirra



CÁPSULA PROTETORA



De novo, estou aqui...
E seus olhos me observam.
Nem importa se não tem um rosto sinto seu olhar devastador...

Suas palavras queimam minha libido como larva
te imaginar só alimenta esse fogo
mas estou longe
posso me trancar numa cápsula...

Fujo de você
pra ser encontrada...
Falo coisas desconexas
pra você entender...

As horas se convertem em desejo
e 'desejo é cruel'...
Mas não dói, me protejo.
E por você me isolo na minha cápsula...

Aqui de novo...
Estou salva e afogando em palavras.
Aqui, sozinha e com você
Onde te devoro através da minha proteção imaginária...

Acauã



ESTRELA BRANCA


Estrela branca do amanhecer
Me ensina o segredo
De viver eternamente
Me faz uma pagina da história
De coração aberto
Livre na memória
Me faz viver
Intensamente esse amor
No infinito que é você.

Retalhe as vestes
Do seu calendário
Deixando o desejo
Desconectar o imaginário
Se lance no sal dos oceanos
E afogue a saudade
No mar dos desenganos
Me faz viver
Intensamente esse amor
No infinito que é você.

Jorge Maia


POEMA EM FORMA DE AGENDA INCUMPRÍVEL (Ou agenda em forma de poema improvável)

pra Priscila Esteves



Comer mais fruta
Perguntar quem é antes de abrir
Aprender alemão
Suar
Dormir cedo
Pedalar muito
Ligar para pelo menos três
Pensar
Comprar aspartame
Rezar
Contatar Fernanda
Plantar coentro
Chorar
Cumprimentar pelo nascimento do bebê
Traduzir todas as letras
Mentir por razões nobres
Perdoar
Tomar dois, em jejum
Perguntar como foi a viagem
Cobrar
Tentar compreender por que
Olhar para o céu
Fazer o que deve ser feito.

Hélio Aroeira


Hoje meu coração
acordou de ressaca.
Foi muito vinho e muita lágrima
pra tanto sentimento sorvido.

Oxigênio estampado.

Foi muito passado passado a limpo.
Foi muito presente oxidado.

01 Setembro 2006

Andrea Paola Costa Prado


Tarde
Desnudar o poema íntimo assim...
é fazer um strip-tease d'alma...
em cenas despudoradas
de amor explícito
ao público !
Ah !...
Nem que seja tarde...

Eu quero mais é fazer cena de Amor Explícito!
Mesmo que seja proibido!
Pra todo mundo querer cometer esse crime
e não haver

nenhum culpado.

Luísa Artèsa


Banho

Desaguo nas águas do banho
O rio que correu de mim
Por imaginar tua voz murmurando
E as minhas mãos acariciando A tua virilidade entregue assim
...Enfim...
Desmancho nas águas meu corpo
E dissolvo meu gozo na água doce
Que se faz salgada como mar
E sussurro teu nome esperando você chegar
Na água do banho com cheiro de almíscar
Extasiada deixo escapar
Minha força ao te imaginar
Com teu jeito de me arrepiar
Até às minhas mais fundas entranhas
E despudoradamente me violar
Quase derreto ao me banhar
Ficando meio totalmente maluca
No cio te sentindo na nuca
A morder...
Os dentes teus a me cravar...
Da água do banho
Eu saio
E numa cama macia
Eu caio
Esperando você voltar.

27 Agosto 2006

Amanda Oliveira

Que morram

Que morram as palavras
Que esmaguem os sonhos
Que retalhem os apelos
E se matem os devaneios

Que estrangulem os planos
Que enforquem os carinhos
Que esfaqueiem os cuidados
E se matem os desenganos

Que desfaleçam as esperanças
Que pisoteiem as lembranças
Que sufoquem os instintos
E se matem os destinos

Que se esqueça com a morte...

23 Agosto 2006

Elege Wiesel



"O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença."

Charles Baudelaire

Tradução: Teófilo Dias
O Espectro


Como espectro agoureiro, hei de, escondido,
Entrar na tua alcova silenciosa,
Deslizando sinistro, sem ruído,
Com as sombras da noite pavorosa.

E a tua branca espádua hei de afagar,
Como a serpente a pedra de um sepulcro,
E hei de imprimir-te ao corpo esbelto e pulcro
Os meus beijos, mais frios que o luar.

Ao repontar a lívida alvorada,
Encontrarás o meu lugar vazio,
E hás de senti-lo abandonado e frio,
Até surgir a noite, ó minha amada.

Sôbre a tua atraente formosura,
E a tua bela mocidade em flor,
Como os outros, mulher, pela ternura,
Eu quero dominar pelo terror!

Bertolt Brecht


A EXCEÇÃO E A REGRA

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam
de que o abuso é sempre a regra
.

Ana Cristina César

Foto: Álbum de Família

SAMBA CANÇÃO


Tantos poemas que perdi,
Tantos que ouvi, de graça
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

22 Agosto 2006

Jonh Lennon


A VIDA É AQUILO QUE ACONTECE ENQUANTO VOCÊ FAZ PLANOS.

João Ubaldo Ribeiro

Foto de Paulo Teixeira

O melhor do futuro é que não estarei nele.


Ferreira Gullar



Posso fazer dez poemas por dia, porque eu sei fazer. Mas nunca farei isso. Eu sempre fui assim, sempre escrevi o poema necessário.

Bob Marley



Enquanto a cor da pele
for mais importante que o brilho dos olhos,
haverá guerra.

Falcão

Filosofia

Toda pessoa
tem um pouco de
gente.

Alice Ruiz







Presente de vênus
primeira estrela que vejo
satisfaça o meu desejo

(HAI TROPIKAI - 1985)