22 setembro 2006

Ana Cristina Souto



Última Afeição


Senti tanto a sua ausência...
Você que me ensinou a admirar as estrelas
que desbravava as minhas esferas
dentro dum silêncio que nos dizia tudo

Aceitava-me por inteira
cúmplice de todas as minhas incertezas
síntese de tanta compreensão incondicional
emanava afeição por todos os poros.

De repente
no deslocar de uma pedra
no alto de uma colina
circunstâncias adversas perderam-se nossa razão

Exilados nos desencantos
sem o brio e o esplendor de uma fera
eu, doce, escrava, fácil presa
degolei minhas ilusões

E agora Ana?

Mergulhei no mais profundo inferno.
Solidão que tanto me assola...
Como exprimir ou tolher tal sentimento?

Sim! Houve um reencontro;
tive a chance de curar minha ferida
e reavivar a chama mortiça
mas feri-me mais com seu desalento.

Rendi-me a seus pés
quase numa súplica.
Em vão! Não tive o seu perdão;
você já não era o mesmo.

E eu, nau, ancorada numa ilusão
sussurrei palavras desconexas
e apenas o que tive de você
foi um olhar de compaixão.

Doeu tanto esses olhos - donos da situação
que antes me ofuscavam como um brilho na escuridão;
que hoje prefiro o escuro de uma madrugada tenebrosa
a seus olhos cegos, frios, fúteis e inúteis.

E a recôndita paz das horas esquecidas;
sem acenos de adeuses,
o sentido que se perdeu
- e acabou-se a história!

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