16 agosto 2006

Fernando Pessoa





Não digas nada! Que hás-me de dizer?


NÃO DIGAS NADA! Que hás me de dizer?
Que a vida é inútil, que o prazer é falso?
Di-lo de cada dia a cadafalso
Ao que ali um dia vai morrer.
Mais vale não querer.
Sim, não querer, porque querer é um ponto,
Ponto no horizonte de onde estamos,
E que nunca atingimos nem achamos.
Presos locais da ida e do horizonte
Sem asas e sem ponte.

Não digas nada, que dizer é nada!
Que importa a vida, e o que se faz na vida?
É tudo um ignorância diluída.
Tudo é esperar à beira de uma estrada
A vinda sempre adiada.

Outros são os caminhos e as razões.
Outra a vontade que nos fará seus.
Outros os montes e os solenes céus.

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